Doenças auto-imunes, origem a partir do intestino

Não se sabe ainda o que inicia o processo de doenças auto-imunes como, por exemplo, a artrite reumatóide, mas um grupo emergente de cientistas está focado num potencial culpado: as bactérias que vivem em nosso intestino.

Vários estudos recentes têm demonstrado as ligações intrigantes entre as bactérias do intestino e artrite reumatóide, lúpus e outras doenças auto-imunes.

Um estudo publicado em 2013, pelo reumatologista da Universidade de Nova York (NYU), Jose Scher, descobriu que pessoas com artrite reumatóide têm muito mais probabilidade de ter uma bactéria chamada Prevotella copri em seus intestinos do que pessoas sem esta doença. Esta bactéria é responsável por diminuir a flora intestinal que são supostamente benéficos para este tipo de doença. E outro estudo publicado por Scher, pessoas com psoríase, outro tipo de doença auto-imune, apresentavam uma diminuição significativa das bactérias benéficas da flora intestinal.

Ao longo dos últimos anos, os cientistas compilaram uma coleção crescente de evidências de que muitos destes micróbios podem ter grande efeito sobre nosso bem-estar, desencadeando alguma doença crônica não infecciosa, tais como a artrite reumatóide, e outras que protegem contra essas doenças.

Os cientistas estão intrigados pela forma como estas bactérias influenciam o sistema imunológico. Nas últimas décadas, a incidência de muitas doenças auto-imunes tem aumentado significativamente; muitos pesquisadores argumentam que pelo menos parte desse aumento é devido a mudanças no nosso ecossistema bacteriano como dieta alterada, a explosão do uso de antibióticos, e a diminuição do contato com o mundo natural de animais e plantas. “Nosso microbioma mudou significativamente ao longo do século passado, e especialmente nos últimos 50 anos”, diz o microbiologista Martin Blaser da NYU, que coloca grande parte da culpa sobre o uso generalizado de antibióticos. “Estamos perdendo micróbios a cada geração; eles estão sendo extinto e, essas mudanças, têm consequências.”

Blaser aponta para a sua própria investigação sobre uma espécie de bactéria chamada Helicobacter pylori. Ele colheu amostras das bactérias do intestino de um grupo de crianças norte-americanas, e descobriu que o Helicobacter pylori existia em apenas 6 por cento deles. Em comparação, outra pesquisa mostrou que a bactéria é comum na grande maioria de pessoas, especialmente nos países em desenvolvimento. O declínio do Helicobacter pylori no Ocidente está provavelmente relacionado com a propagação de antibióticos. Algumas pesquisas indicam que a bactéria pode reduzir o risco de asma, talvez por cercear a resposta imunológica do corpo para estímulos aéreos. Blaser suspeita que a asma é uma das doenças afetadas pelo nosso microbioma mudando.

Estas bactérias são especialmente influentes no intestino, que abriga dois terços de células do sistema imunológico do corpo. Quanto a via da digestão, o trato gastrointestinal deve lidar com um fluxo constante de micróbios estrangeiros relacionados com os alimentos, que devem ser monitorados e, se são prejudiciais, serão destruídos. Para fazer isso, nossos intestinos têm desenvolvido um extenso sistema imunológico, cujos efeitos vão muito além do intestino. As células imunes no intestino parecem ser capazes de ativar as células inflamatórias em todo o corpo, incluindo nas articulações.

Fonte: Scher et al. Elife 5;2e01202, 2013

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